Esta página reúne só o que ficou estranho na apuração do 2º turno de 2026. Tudo que eu consegui explicar está no painel principal. Aqui estão os pontos em que os números se comportam de um jeito que a história eleitoral brasileira não mostra — e em que eu não consigo fechar a conta com os dados públicos.
Como ler esta página. "Anomalia" quer dizer fora do padrão, não "fraude provada". Em todos os casos abaixo a contagem fecha aritmeticamente: nenhum voto aparece sem origem e nenhum boletim está duplicado. O que está errado não é a soma — é o comportamento dos votos. Eu não afirmo que houve fraude porque não tenho prova; e não afirmo que não houve pelo mesmo motivo.
Refiz a conta principal no nível de seção, em vez de município, e o resultado muda: nas 20.744 seções com queda de 10 ou mais votantes, Lula ganhou +91.474 e Flávio perdeu −118.313, contra uma queda de comparecimento de −367.755. O ganho de Lula equivale a 33,3% do estoque — não 114%. E Flávio perdeu mais votos do que a própria abstenção, que é o retrato clássico de abstenção seletiva (eleitores dele faltando no 2º turno).
A correlação entre variação de comparecimento e ganho é +0,63 para Lula e +0,50 para Flávio — positiva para os dois, como se espera quando mais gente votando gera mais voto para ambos. A leitura de 114,5% era artefato de agregação municipal: ao somar o município inteiro, a queda de comparecimento das seções onde Flávio era forte se diluía, e o ganho de Lula em outras seções aparecia como "captura impossível".
O que isso significa: a anomalia principal desta página não se sustenta no teste mais fino. Eu prefiro corrigir a mim mesmo do que manter um achado que não resiste. Mantenho o texto abaixo como registro do que foi medido e do porquê ele enganava — e as seções 2 a 6 continuam valendo como pontos de atenção, com as ressalvas indicadas.
Cada urna assina digitalmente 11 documentos. O TSE publica 4. Os outros 7 não estão disponíveis em nenhum caminho do portal — testei todos, e todos respondem 404, inclusive usando o mesmo hash da pasta onde o boletim digital baixa normalmente.
| Documento | O que contém | Publicado? |
|---|---|---|
| bu.dat | boletim de urna (os votos) | sim |
| rdv.dat | registro digital do voto (agregado por cargo) | sim |
| log.jez | log da urna | sim |
| vota.vsc | assinatura e lista de documentos | sim |
| wsqbio.jez | fila de eleitores identificados por biometria | NÃO |
| wsqman.jez | fila de eleitores identificados manualmente | NÃO |
| wsqmes.jez | fila de mesários | NÃO |
| jufa.dat | justificativas de ausência | NÃO |
| imgbu.dat | imagem do boletim impresso | NÃO |
| imgze.dat | imagem da zerésima | NÃO |
| hash.dat | hashes dos arquivos | NÃO |
Os três arquivos wsq são as filas de identificação de eleitores — a lista de quem foi identificado como votante naquela urna, separada por biometria, liberação manual e mesário. É exatamente o dado que resolveria as duas perguntas que esta auditoria não consegue fechar:
Ou seja: o dado que encerraria a discussão existe, está assinado pela urna, e não é publicado. Não é que ele não exista — é que ele não está no pacote de transparência. Isso não prova fraude: prova que a verificação independente tem um limite que não depende de mim.
Os outros quatro também têm peso: o imgbu (boletim impresso) é o único elo entre o papel e o arquivo digital — e apareceu indexado em 52.767 urnas antes de ser retirado; o jufa registraria quem justificou ausência; o imgze mostraria a zerésima, que é a prova de que a urna começou vazia; e o hash permitiria conferir arquivo por arquivo sem depender do pacote de assinatura.
Nota: este número é de agregação municipal e não resiste ao teste por seção (ver correção acima).
do estoque mecanicamente disponível, em 869 municípios onde o comparecimento caiu.
Cada célula é um grupo de municípios. A vermelho, os que ficam acima de 100% e à esquerda de zero: perderam votantes e ainda assim Lula ganhou mais do que o estoque permitia. São 869 municípios.
O "estoque mecanicamente disponível" para um candidato crescer é a soma de duas coisas: (a) os votos dos candidatos que foram eliminados no 1º turno e (b) o aumento dos votos válidos (mais gente votando + brancos e nulos que viraram voto). Fora isso, só há uma fonte: eleitor do adversário mudando de lado.
Nos 869 municípios em que o comparecimento caiu 220.084 votantes, o estoque disponível era de 775.431 votos dos eliminados — e nada de aumento de válidos, porque houve queda. Lula ganhou 708.223 nesses municípios.
| Municípios com comparecimento em queda | Valor |
|---|---|
| Municípios | 869 |
| Variação do comparecimento | -220.084 |
| Votos dos eliminados no 1º turno (estoque) | 775.431 |
| Lula ganhou | +708.223 |
| Flávio ganhou | +25.416 |
| Captura de Lula sobre o estoque | 114,5% |
Ou seja: para ganhar 708.223 votos num lugar onde menos gente votou, Lula precisou absorver 91,3% de todos os votos dos candidatos eliminados daqueles municípios. Sob a premissa de que a abstenção é neutra entre os candidatos, isso é matematicamente impossível — não haveria votos suficientes para ele ganhar tanto.
Onde o comparecimento subiu (4.506 municípios), a captura é de 72,3% — normal. A correlação entre aumento de comparecimento e captura de Lula é −0,33: quanto menos gente votou, mais Lula capturou.
Aplicando exatamente o mesmo cálculo ao 2º turno de 2022, nos municípios onde os votos válidos caíram (2.293 municípios), a captura de Lula foi de 29,3% e a de Bolsonaro de 70,7%.
| Municípios com comparecimento em queda | 2022 | 2026 |
|---|---|---|
| Captura de Lula do estoque | 29,3% | 91,3% |
| Captura do adversário (Flávio em 2026) | 70,7% | 3,3% |
Em 2022 os eliminados eram Ciro (12) e Tebet (15) — centro-esquerda e centro — e quem os absorveu foi Bolsonaro. Em 2026 os eliminados são Cury (70) e Renan (14), que somam 6.124.392 votos, mais Caiado (55) e Zema (30) com 2.931.599. A esquerda somou apenas 203.723.
O ponto: o fluxo inverter com a mudança dos eliminados é esperado. A magnitude, não. Para Lula chegar aos 10.376.873 que ganhou no país, ele teria de capturar 93,4% do pool de centro + novos válidos + esquerda. Em 2022 esse número foi de 30,2%.
| Ano | Líder do 1º turno | Vencedor |
|---|---|---|
| 1989 | Collor | Collor |
| 2002 | Lula | Lula |
| 2006 | Lula | Lula |
| 2010 | Dilma | Dilma |
| 2014 | Dilma | Dilma |
| 2018 | Bolsonaro | Bolsonaro |
| 2022 | Lula | Lula |
| 2026 | Flávio (47,03%) | Lula (51,79%) |
Flávio liderou o 1º turno por 1,87 ponto e perdeu. Em 7 de 7 segundos turnos presidenciais anteriores, quem chegou na frente venceu.
Mas atenção: a virada do líder é rotina nos governos estaduais. Em 2026, dois dos seis estados com 2º turno para governador tiveram virada: no RN, o 44 liderou (733.809 × 718.300) e o 13 venceu (1.073.024 × 1.040.399); no TO, o 44 liderou (386.260 × 372.848) e o 45 venceu (562.083 × 309.076). Em 2022, Pernambuco teve virada. É o mesmo mecanismo — não é um fenômeno impossível, é um fenômeno novo para presidente.
| Onde Lula era… | Lula no 1º turno | Captura do estoque |
|---|---|---|
| Forte (quartil de cima) | 74,1% | 98,8% |
| Fraco (quartil de baixo) | 25,5% | 58,6% |
| Em 2022, a mesma conta: 39,8% onde era forte e 15,4% onde era fraco | ||
Em 74% dos votos do 1º turno, Lula praticamente não deixou voto livre: absorveu 98,8% de tudo que estava disponível. O padrão (mais forte → mais captura) é o mesmo de 2022, mas a magnitude é 2,5 vezes maior.
| Item | Valor |
|---|---|
| Lula 1º turno | 53.878.914 (45,2%) |
| Flávio 1º turno | 56.103.951 (47,0%) |
| Lula 2º turno | 64.255.787 (51,8%) |
| Flávio 2º turno | 59.825.688 (48,2%) |
| Votos dos eliminados no 1º turno | 9.321.882 |
| Aumento dos votos válidos | +4.776.728 |
| Estoque total disponível | 14.098.610 |
| Lula ganhou | +10.376.873 |
| Flávio ganhou | +3.721.737 |
| Captura de Lula | 73,6% |
A captura de Lula não é uniforme no país. Ela passa de 100% em quase todos os municípios de Maranhão (76%), Alagoas (71%), Tocantins (71%), Pará (46%), Piauí (44%), Rio Grande do Norte (44%) e Ceará (26%), e fica perto de zero em Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Paraná e Minas. É um padrão regional nítido — o Nordeste e o Norte capturaram muito mais que o Sul e o Sudeste.
Captura mediana de Lula sobre o estoque disponível, por estado. Vermelho: acima de 100%. Amarelo: 90–100%. Azul: abaixo de 90%.
Isso não é coordenação — é composição. Os estados que capturaram mais são justamente os de menor comparecimento e maior base de Lula. Onde Lula já tinha 74% dos votos, sobrava pouco voto de adversário para ganhar e muito voto próprio para consolidar: a captura sobre o estoque explode aritmeticamente. É a mesma razão pela qual a captura é alta onde o comparecimento caiu. Continua sendo anomalia — mas é uma anomalia explicável pela composição, não pela existência de um agente coordenando.
Em todas as conferências abaixo, os dados estão consistentes. Elas não são desculpa: são o motivo pelo qual uma anomalia estatística não vira acusação.
Abstenção seletiva. O cálculo de "estoque" assume que a mudança de comparecimento é neutra entre os candidatos. Se eleitores de Flávio faltaram mais no 2º turno do que os de Lula, Lula ganha votos sem novos eleitores: o comparecimento cai e a fatia dele sobe. Isso produz exatamente o padrão que eu medi — captura acima de 100% onde o comparecimento caiu. É composição, não voto criado.
Para confirmar ou descartar seria preciso o registro individual do voto, que não é publicado: o RDV é agregado por cargo, não por pessoa. Nem o boletim nem o RDV trazem o número do eleitor. É exatamente aqui que os dados públicos param.
Fonte: arquivos públicos do TSE (pleitos 3220 e 3221) e dados abertos de 2022. Todos os números desta página foram calculados a partir dos boletins publicados e podem ser refeitos com o pacote de dados do painel. Última atualização: 29/10/2026.