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As anomalias que não fecham

Esta página reúne só o que ficou estranho na apuração do 2º turno de 2026. Tudo que eu consegui explicar está no painel principal. Aqui estão os pontos em que os números se comportam de um jeito que a história eleitoral brasileira não mostra — e em que eu não consigo fechar a conta com os dados públicos.

Como ler esta página. "Anomalia" quer dizer fora do padrão, não "fraude provada". Em todos os casos abaixo a contagem fecha aritmeticamente: nenhum voto aparece sem origem e nenhum boletim está duplicado. O que está errado não é a soma — é o comportamento dos votos. Eu não afirmo que houve fraude porque não tenho prova; e não afirmo que não houve pelo mesmo motivo.

Correção importante (29/10, depois de publicar esta página)

Refiz a conta principal no nível de seção, em vez de município, e o resultado muda: nas 20.744 seções com queda de 10 ou mais votantes, Lula ganhou +91.474 e Flávio perdeu −118.313, contra uma queda de comparecimento de −367.755. O ganho de Lula equivale a 33,3% do estoque — não 114%. E Flávio perdeu mais votos do que a própria abstenção, que é o retrato clássico de abstenção seletiva (eleitores dele faltando no 2º turno).

A correlação entre variação de comparecimento e ganho é +0,63 para Lula e +0,50 para Flávio — positiva para os dois, como se espera quando mais gente votando gera mais voto para ambos. A leitura de 114,5% era artefato de agregação municipal: ao somar o município inteiro, a queda de comparecimento das seções onde Flávio era forte se diluía, e o ganho de Lula em outras seções aparecia como "captura impossível".

O que isso significa: a anomalia principal desta página não se sustenta no teste mais fino. Eu prefiro corrigir a mim mesmo do que manter um achado que não resiste. Mantenho o texto abaixo como registro do que foi medido e do porquê ele enganava — e as seções 2 a 6 continuam valendo como pontos de atenção, com as ressalvas indicadas.

0. O que a urna assina e o TSE não publica

Cada urna assina digitalmente 11 documentos. O TSE publica 4. Os outros 7 não estão disponíveis em nenhum caminho do portal — testei todos, e todos respondem 404, inclusive usando o mesmo hash da pasta onde o boletim digital baixa normalmente.

DocumentoO que contémPublicado?
bu.datboletim de urna (os votos)sim
rdv.datregistro digital do voto (agregado por cargo)sim
log.jezlog da urnasim
vota.vscassinatura e lista de documentossim
wsqbio.jezfila de eleitores identificados por biometriaNÃO
wsqman.jezfila de eleitores identificados manualmenteNÃO
wsqmes.jezfila de mesáriosNÃO
jufa.datjustificativas de ausênciaNÃO
imgbu.datimagem do boletim impressoNÃO
imgze.datimagem da zerésimaNÃO
hash.dathashes dos arquivosNÃO

Por que isso é o ponto mais importante desta página

Os três arquivos wsq são as filas de identificação de eleitores — a lista de quem foi identificado como votante naquela urna, separada por biometria, liberação manual e mesário. É exatamente o dado que resolveria as duas perguntas que esta auditoria não consegue fechar:

Ou seja: o dado que encerraria a discussão existe, está assinado pela urna, e não é publicado. Não é que ele não exista — é que ele não está no pacote de transparência. Isso não prova fraude: prova que a verificação independente tem um limite que não depende de mim.

Os outros quatro também têm peso: o imgbu (boletim impresso) é o único elo entre o papel e o arquivo digital — e apareceu indexado em 52.767 urnas antes de ser retirado; o jufa registraria quem justificou ausência; o imgze mostraria a zerésima, que é a prova de que a urna começou vazia; e o hash permitiria conferir arquivo por arquivo sem depender do pacote de assinatura.

1. Onde o comparecimento caiu, Lula captou 114% do que havia para captar

Nota: este número é de agregação municipal e não resiste ao teste por seção (ver correção acima).

114,5%

do estoque mecanicamente disponível, em 869 municípios onde o comparecimento caiu.

100% do estoque disponívelvariação do comparecimento do 1º para o 2º turno (%)captura de Lula (% do estoque)-8%-4%+0%+4%+8%0%50%100%150%

Cada célula é um grupo de municípios. A vermelho, os que ficam acima de 100% e à esquerda de zero: perderam votantes e ainda assim Lula ganhou mais do que o estoque permitia. São 869 municípios.

Por que isso é estranho

O "estoque mecanicamente disponível" para um candidato crescer é a soma de duas coisas: (a) os votos dos candidatos que foram eliminados no 1º turno e (b) o aumento dos votos válidos (mais gente votando + brancos e nulos que viraram voto). Fora isso, só há uma fonte: eleitor do adversário mudando de lado.

Nos 869 municípios em que o comparecimento caiu 220.084 votantes, o estoque disponível era de 775.431 votos dos eliminados — e nada de aumento de válidos, porque houve queda. Lula ganhou 708.223 nesses municípios.

Municípios com comparecimento em quedaValor
Municípios869
Variação do comparecimento-220.084
Votos dos eliminados no 1º turno (estoque)775.431
Lula ganhou+708.223
Flávio ganhou+25.416
Captura de Lula sobre o estoque114,5%

Ou seja: para ganhar 708.223 votos num lugar onde menos gente votou, Lula precisou absorver 91,3% de todos os votos dos candidatos eliminados daqueles municípios. Sob a premissa de que a abstenção é neutra entre os candidatos, isso é matematicamente impossível — não haveria votos suficientes para ele ganhar tanto.

Onde o comparecimento subiu (4.506 municípios), a captura é de 72,3% — normal. A correlação entre aumento de comparecimento e captura de Lula é −0,33: quanto menos gente votou, mais Lula capturou.

2. A mesma conta em 2022 dá 29% — não 91%

Aplicando exatamente o mesmo cálculo ao 2º turno de 2022, nos municípios onde os votos válidos caíram (2.293 municípios), a captura de Lula foi de 29,3% e a de Bolsonaro de 70,7%.

Municípios com comparecimento em queda20222026
Captura de Lula do estoque29,3%91,3%
Captura do adversário (Flávio em 2026)70,7%3,3%

Em 2022 os eliminados eram Ciro (12) e Tebet (15) — centro-esquerda e centro — e quem os absorveu foi Bolsonaro. Em 2026 os eliminados são Cury (70) e Renan (14), que somam 6.124.392 votos, mais Caiado (55) e Zema (30) com 2.931.599. A esquerda somou apenas 203.723.

2022 — municípios com queda29.3%2026 — municípios com queda91.3%quanto Lula absorveu dos votos dos eliminados, onde o comparecimento caiu

O ponto: o fluxo inverter com a mudança dos eliminados é esperado. A magnitude, não. Para Lula chegar aos 10.376.873 que ganhou no país, ele teria de capturar 93,4% do pool de centro + novos válidos + esquerda. Em 2022 esse número foi de 30,2%.

3. O líder do 1º turno perdeu — pela primeira vez na história presidencial

AnoLíder do 1º turnoVencedor
1989CollorCollor
2002LulaLula
2006LulaLula
2010DilmaDilma
2014DilmaDilma
2018BolsonaroBolsonaro
2022LulaLula
2026Flávio (47,03%)Lula (51,79%)

Flávio liderou o 1º turno por 1,87 ponto e perdeu. Em 7 de 7 segundos turnos presidenciais anteriores, quem chegou na frente venceu.

Mas atenção: a virada do líder é rotina nos governos estaduais. Em 2026, dois dos seis estados com 2º turno para governador tiveram virada: no RN, o 44 liderou (733.809 × 718.300) e o 13 venceu (1.073.024 × 1.040.399); no TO, o 44 liderou (386.260 × 372.848) e o 45 venceu (562.083 × 309.076). Em 2022, Pernambuco teve virada. É o mesmo mecanismo — não é um fenômeno impossível, é um fenômeno novo para presidente.

4. Lula capturou 98,8% dos votos livres nas suas próprias áreas

Onde Lula era…Lula no 1º turnoCaptura do estoque
Forte (quartil de cima)74,1%98,8%
Fraco (quartil de baixo)25,5%58,6%
Em 2022, a mesma conta: 39,8% onde era forte e 15,4% onde era fraco

Em 74% dos votos do 1º turno, Lula praticamente não deixou voto livre: absorveu 98,8% de tudo que estava disponível. O padrão (mais forte → mais captura) é o mesmo de 2022, mas a magnitude é 2,5 vezes maior.

5. Os números nacionais, para referência

ItemValor
Lula 1º turno53.878.914 (45,2%)
Flávio 1º turno56.103.951 (47,0%)
Lula 2º turno64.255.787 (51,8%)
Flávio 2º turno59.825.688 (48,2%)
Votos dos eliminados no 1º turno9.321.882
Aumento dos votos válidos+4.776.728
Estoque total disponível14.098.610
Lula ganhou+10.376.873
Flávio ganhou+3.721.737
Captura de Lula73,6%

6. Onde a anomalia se concentra: o mapa dos estados

A captura de Lula não é uniforme no país. Ela passa de 100% em quase todos os municípios de Maranhão (76%), Alagoas (71%), Tocantins (71%), Pará (46%), Piauí (44%), Rio Grande do Norte (44%) e Ceará (26%), e fica perto de zero em Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Paraná e Minas. É um padrão regional nítido — o Nordeste e o Norte capturaram muito mais que o Sul e o Sudeste.

100%TO121MA115AL106RN98PA98PI98PB94SE93CE92PE91RJ88BA82MG73MS70ES70MT69ZZ66SP66PR63RO62GO59RS58SC55captura mediana de Lula (% do estoque disponível), por estado

Captura mediana de Lula sobre o estoque disponível, por estado. Vermelho: acima de 100%. Amarelo: 90–100%. Azul: abaixo de 90%.

Isso não é coordenação — é composição. Os estados que capturaram mais são justamente os de menor comparecimento e maior base de Lula. Onde Lula já tinha 74% dos votos, sobrava pouco voto de adversário para ganhar e muito voto próprio para consolidar: a captura sobre o estoque explode aritmeticamente. É a mesma razão pela qual a captura é alta onde o comparecimento caiu. Continua sendo anomalia — mas é uma anomalia explicável pela composição, não pela existência de um agente coordenando.

O que isso NÃO prova — e por que eu não escrevo "fraude"

Em todas as conferências abaixo, os dados estão consistentes. Elas não são desculpa: são o motivo pelo qual uma anomalia estatística não vira acusação.

A hipótese que eu não posso descartar

Abstenção seletiva. O cálculo de "estoque" assume que a mudança de comparecimento é neutra entre os candidatos. Se eleitores de Flávio faltaram mais no 2º turno do que os de Lula, Lula ganha votos sem novos eleitores: o comparecimento cai e a fatia dele sobe. Isso produz exatamente o padrão que eu medi — captura acima de 100% onde o comparecimento caiu. É composição, não voto criado.

Para confirmar ou descartar seria preciso o registro individual do voto, que não é publicado: o RDV é agregado por cargo, não por pessoa. Nem o boletim nem o RDV trazem o número do eleitor. É exatamente aqui que os dados públicos param.

O que eu peço ao TSE

Fonte: arquivos públicos do TSE (pleitos 3220 e 3221) e dados abertos de 2022. Todos os números desta página foram calculados a partir dos boletins publicados e podem ser refeitos com o pacote de dados do painel. Última atualização: 29/10/2026.

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